O problema do buraco das contas na Madeira veio na pior altura para Portugal. Passos Coelho disse na entrevista que deu à RTP 1, esta terça-feira, que o maior rombo será na reputação do País.
Concordo plenamente que o argumento da nossa capacidade de sermos sérios está exposto como uma farsa. Mas o mais grave murro, nem foi na nossa imagem externa. Foi na nossa imagem interna, na confiança dos portugueses nas suas instituições. Os portugueses já sabiam, desde a entrada da troika no País, que os órgãos de soberania nacional estavam de mãos atadas. Os recentes aumentos de impostos, a decisão de não inviabilizar o TGV, tudo bandeiras eleitorais importantes do partido principal do Governo na última eleição, já foram postos de lado em nome de compromissos externos. Mas agora ficamos a saber que o Governo não tem, internamente, controlo sobre o comportamento irresponsável e não sancionado do Governo da Madeira que já dura há anos. Na resposta ao problema, duas vias têm sido apontadas, nomeadamente a vontade eleitoral ou os tribunais. Nas eleições para o Governo Regional da Madeira que vão ter lugar já no próximo dia 9 de Outubro, diz-se que a resposta poderá vir dos madeirenses. Mas temo que assim não seja, tendo em conta que o estilo Jardim é conhecido e muito apreciado na ilha ao longo dos últimos trinta anos. Também há quem sugira que os Tribunais devem dar uma resposta a esta situação, julgando este comportamento do Governo Regional. O estado da nossa Justiça, a sua politização, bem como os atrasos que qualquer processo judicial implica desaconselham essa via como solução principal.
Nesta procura de soluções, é confrangedor a forma como a política é os instrumentos da política são raramente mencionados. Não cabe apenas aos cidadãos a legitimação do poder. Também são os partidos e outros órgãos de soberania que devem tomar uma posição de força. Passos Coelho informou na entrevista à RTP 1 que não irá fazer campanha eleitoral à Madeira. É curto, perante o discurso que tem de ser feito de rigor. Tendo em conta o que se sabe hoje, a forma como sucessivos governos pactuaram com a forma de fazer política na Madeira não pode ser tratada como apenas mais uma infelicidade de Jardim.
Para já é fundamental uma responsabilização política neste caso. Do ponto de vista sistémico, há várias medidas importantes. Concordo com António Capucho que Jardim não deveria ter ficado de fora da lei de limitação dos mandatos, ao contrário do que aconteceu com os autarcas. Depois, este episódio reforça a ideia que a monitorização do processo orçamental em Portugal tem deficiências graves. O projecto do Open Budget Initiative, que integro, mostrou amplamente num relatório publicado em 2010, que a transparência orçamental em Portugal é inferior à dos países europeus, e abaixo da média da
OCDE. Tanto no que diz respeito à informação dada das contas públicas aos cidadãos como no controle que é exercido pelo Parlamento e pelo Tribunal de Contas aos órgãos do Estado que são responsáveis pela despesa. Sem suprir estes problemas não há austeridade que nos valha, pois será sempre difícil conter as despesas.
Mas também do ponto de vista dos actores políticos era preciso demonstrar algum músculo. Nesse aspecto, tanto o Presidente da República como o Presidente do PSD deveriam demarcar-se de
Alberto João Jardim pelo buraco detectado agora. Não integro o grupo de pessoas que clama por uma intervenção maior do Presidente da República nos destinos da governação. No entanto, o correcto funcionamento do semi-presidencialismo em Portugal pressupõe o exercício pleno dos poderes do Presidente da República. Ele, através do Ministro da República tem uma palavra importante a dizer na formação e demissão dos governos regionais da Madeira. Além disso, não sendo o PSD responsável pelos candidatos ao Governo Regional, deveria haver uma posição oficial do partido para coincidir com as eleições. Os políticos não se podem demitir dos acontecimentos, se não correm o risco da total irrelevância.